CAR-T Cell no Brasil: como células do próprio paciente podem eliminar certos cânceres do sangue

A terapia CAR-T transforma linfócitos T do próprio paciente em células capazes de reconhecer um alvo do tumor. No Brasil, uma versão anti-CD19 desenvolvida pelo Hemocentro de Ribeirão Preto/USP em parceria com o Instituto Butantan apresentou resultados preliminares muito altos em pacientes com linfoma refratário e avança em estudo clínico com objetivo de chegar ao SUS.

Resumo: CAR-T é uma forma de imunoterapia celular e terapia gênica. As células T são coletadas, modificadas em laboratório para expressar um receptor quimérico — o CAR —, expandidas e devolvidas ao paciente. A versão brasileira atualmente estudada reconhece CD19, proteína presente em células B, e é direcionada principalmente à leucemia linfoide aguda de células B e ao linfoma não-Hodgkin de células B recidivado ou refratário. Em junho de 2026, resultados preliminares apontaram 87,5% de resposta em pacientes com linfoma. Isso não significa 87,5% de cura definitiva.

O caso de Paulo Peregrino

O publicitário Paulo Peregrino se tornou um dos casos mais conhecidos da terapia CAR-T brasileira. Ele havia convivido por anos com câncer e, depois do diagnóstico de linfoma não-Hodgkin, passou por dezenas de ciclos de quimioterapia e por transplante de medula óssea sem controle duradouro da doença.

Em março de 2023, recebeu células CAR-T produzidas pelo Hemocentro de Ribeirão Preto. O exame realizado poucas semanas depois não mostrou doença detectável, caracterizando remissão completa. Reportagens posteriores popularizaram o intervalo de 48 dias; o relato publicado em 2023 descreve um PET-scan cerca de um mês após a infusão já sem sinais detectáveis dos tumores.

Há pequena divergência entre reportagens sobre o número exato de sessões de quimioterapia: o relato contemporâneo de 2023 menciona 45, enquanto matérias mais recentes arredondam para cerca de 50. O ponto clínico central não muda: tratava-se de um paciente intensamente pré-tratado, com doença refratária.

Remissão não é sinônimo de cura. Um exame sem doença detectável é um resultado excelente, mas pacientes tratados com CAR-T precisam de acompanhamento prolongado porque pode haver recaída, perda do alvo tumoral ou efeitos tardios.

Como a CAR-T funciona?

O sistema imunológico já possui células T capazes de destruir células infectadas ou anormais. O problema é que muitos tumores conseguem escapar desse reconhecimento. A CAR-T adiciona artificialmente às células T um receptor desenhado para identificar uma molécula do câncer.

No produto brasileiro em estudo, o alvo é o CD19, proteína expressa em células da linhagem B. Quando a célula CAR-T encontra uma célula CD19 positiva, o receptor ativa sinais internos que fazem o linfócito atacar, liberar moléculas citotóxicas, proliferar e recrutar uma resposta imune adicional.

Etapas do tratamento

  1. Coleta: linfócitos T são retirados do sangue do paciente por aférese.
  2. Modificação genética: em laboratório, as células recebem o gene que codifica o receptor CAR anti-CD19.
  3. Expansão e controle de qualidade: as células modificadas são multiplicadas e testadas.
  4. Linfodepleção: antes da infusão, o paciente geralmente recebe quimioterapia curta para reduzir temporariamente outras células imunes e criar um ambiente favorável à expansão das CAR-T.
  5. Infusão: as células são administradas pela veia, frequentemente em uma única infusão.
  6. Monitoramento: a equipe acompanha resposta tumoral e toxicidades precoces e tardias.

O processo completo é personalizado e pode levar várias semanas. Por isso, CAR-T é logisticamente muito diferente de um medicamento produzido em massa e entregue pronto.

O estudo brasileiro CARTHEDRALL

O produto nacional é desenvolvido no Hemocentro de Ribeirão Preto e no Centro de Terapia Celular da USP, em parceria com o Instituto Butantan. O ensaio CARTHEDRALL é um estudo multicêntrico de fase 1/2 destinado a pacientes com leucemia linfoide aguda de células B ou linfoma não-Hodgkin de células B recidivado/refratário.

O protocolo prevê 81 pacientes e envolve cinco centros: Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, Hospital das Clínicas da FMUSP, HC-Unicamp, Beneficência Portuguesa e Hospital Sírio-Libanês.

A Anvisa aprovou o relatório de segurança da primeira etapa e autorizou a progressão do estudo. Em junho de 2026, dados preliminares divulgados pelo Ministério da Saúde apontaram 87,5% de resposta entre pacientes com linfoma que já haviam falhado a tratamentos anteriores. O estudo continuava em andamento e exigia pelo menos um ano de acompanhamento após a infusão para consolidar segurança e eficácia.

Como interpretar 87,5%? Trata-se de taxa de resposta preliminar, isto é, redução importante ou desaparecimento detectável do tumor em uma população selecionada e gravemente doente. Não equivale a 87,5% de cura, nem permite afirmar que a mesma taxa ocorrerá em qualquer pessoa com linfoma.

Por que CAR-T pode funcionar quando a quimioterapia falhou?

A quimioterapia convencional depende principalmente da maior sensibilidade de células que se dividem rapidamente. Já a CAR-T utiliza um mecanismo completamente diferente: reconhecimento molecular específico e ataque imunológico. Uma célula tumoral resistente a vários quimioterápicos ainda pode continuar expressando CD19 e, portanto, permanecer vulnerável à CAR-T.

Além disso, as células CAR-T podem expandir-se no organismo depois da infusão e algumas persistem por meses ou anos, oferecendo vigilância contra células tumorais residuais. Essa persistência varia entre produtos e pacientes.

Quais cânceres podem ser tratados?

A versão brasileira do CARTHEDRALL é anti-CD19. Seu foco são malignidades de células B, especialmente:

• leucemia linfoide aguda de células B;
• linfoma não-Hodgkin de células B recidivado ou refratário.

Ela não é uma terapia universal contra câncer. Tumores sólidos, como câncer de pulmão, mama, próstata ou pâncreas, em geral não expressam CD19 e apresentam obstáculos adicionais: microambiente imunossupressor, heterogeneidade dos alvos e dificuldade de as células T penetrarem no tumor.

Existem outros CAR-T no mundo direcionados a alvos diferentes, como BCMA no mieloma múltiplo. A plataforma, portanto, é adaptável, mas cada combinação de alvo e doença exige validação específica.

Quais são os principais riscos?

CAR-T pode produzir respostas dramáticas, mas não é um tratamento leve. As células modificadas podem desencadear uma ativação imunológica muito intensa.

Síndrome de liberação de citocinas (CRS): febre alta, queda de pressão, taquicardia, hipóxia e, nos casos graves, disfunção de órgãos. Pode exigir tocilizumabe, corticoide, suporte intensivo e internação.

ICANS — síndrome de neurotoxicidade associada a células efetoras imunes: pode causar confusão, alteração de linguagem, tremores, sonolência, convulsões e, raramente, complicações neurológicas graves.

Citopenias e infecções: queda prolongada de leucócitos, plaquetas ou hemoglobina pode aumentar risco de infecção e sangramento. Como CD19 também existe em células B normais, é possível haver redução prolongada dessas células e de imunoglobulinas.

Efeitos tardios: autoridades regulatórias mantêm acompanhamento de longo prazo. A FDA, por exemplo, incluiu alerta para casos raros de malignidades de células T após terapias CAR-T autólogas, embora o benefício continue superando o risco nas indicações aprovadas.

É uma terapia aprovada no Brasil?

A tecnologia CAR-T já existe comercialmente no país por meio de produtos registrados pela Anvisa. O produto brasileiro do CARTHEDRALL, porém, ainda é investigacional e não deve ser confundido com esses produtos comerciais.

O objetivo do projeto brasileiro é gerar evidência suficiente para registro regulatório e, posteriormente, avaliação de incorporação ao SUS. A participação no estudo é gratuita para pacientes elegíveis e recrutados pelos centros participantes.

Quanto custa?

Terapias CAR-T comerciais estão entre os tratamentos mais caros da medicina. Em 2026, o governo brasileiro citou custo de aproximadamente R$ 2,5 milhões para tratamentos similares disponíveis na rede privada.

A produção nacional procura mudar essa equação por meio de fabricação em instituições públicas, aumento de escala e redução da dependência de produtos importados. O objetivo declarado é tornar possível uma futura oferta pelo SUS, caso eficácia, segurança, registro e avaliação de incorporação sejam favoráveis.

O que há de novo além do câncer?

O conceito de eliminar seletivamente células B também começou a ser estudado em doenças autoimunes. Em 2026, USP, Hemocentro de Ribeirão Preto, Butantan e Fapesp anunciaram cooperação para desenvolver estudos de CAR-T em lúpus eritematoso sistêmico e miastenia gravis generalizada.

A lógica é diferente da oncologia: eliminar profundamente clones de células B que sustentam autoanticorpos poderia permitir uma espécie de “reset” do sistema imune. Essa aplicação ainda é experimental e passa por avaliação regulatória.

O que podemos concluir?

CAR-T representa uma mudança de paradigma: em vez de administrar apenas um fármaco ao paciente, fabrica-se uma população de células imunes personalizadas e geneticamente programadas para reconhecer o câncer.

O caso de Paulo Peregrino mostra o potencial extremo dessa abordagem: doença refratária após múltiplos tratamentos seguida de remissão completa em poucas semanas. O dado brasileiro mais importante, porém, não é um caso isolado: os resultados preliminares de 2026 mostraram 87,5% de resposta em pacientes com linfoma dentro do programa clínico.

A interpretação correta é simultaneamente otimista e cautelosa. A terapia pode produzir remissões que seriam improváveis com tratamentos anteriores, mas envolve riscos relevantes, não funciona para todos os cânceres, pode haver recaída e o produto nacional ainda precisa concluir sua avaliação clínica e regulatória.

Se os resultados se mantiverem e o produto for aprovado, o impacto mais importante pode ser não apenas científico, mas também de acesso: transformar uma terapia que hoje custa milhões de reais em uma tecnologia produzida no Brasil e potencialmente disponível no SUS.

Referências

  1. Hemocentro de Ribeirão Preto. Estudo Clínico para o tratamento de leucemia e linfoma. Informações atuais sobre CARTHEDRALL, população, centros participantes e avanço do estudo.
  2. Instituto Butantan. Terapia Celular CAR-T. Funcionamento da tecnologia, desenvolvimento nacional e objetivo de acesso pelo SUS.
  3. Agência Brasil. Terapia CAR-T Cell mostra resposta de 87,5% em pacientes com linfoma. 10 jun. 2026.
  4. Hemocentro de Ribeirão Preto. Terapia experimental com células CAR-T alcança remissão em paciente com câncer há 13 anos. 2023.
  5. Revista piauí. Publicitário conta como teve remissão completa do câncer. Relato de Paulo Peregrino, 2023.
  6. Anvisa. Produtos de terapias avançadas registrados.
  7. U.S. Food and Drug Administration. Safety information for autologous CAR-T cell immunotherapies. 2025.
  8. U.S. Food and Drug Administration. Boxed warning for T-cell malignancies following CAR-T therapy. 2024.
  9. Instituto Butantan. CAR-T em lúpus e miastenia gravis. 2026.

Conteúdo informativo. CAR-T é uma terapia de alta complexidade indicada apenas para situações específicas e realizada em centros especializados. Elegibilidade, riscos e alternativas devem ser avaliados por equipe de hematologia/oncologia.

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