CAR-T Cell no Brasil: como células do próprio paciente podem eliminar certos cânceres do sangue
A terapia CAR-T transforma linfócitos T do próprio paciente em células capazes de reconhecer um alvo do tumor. No Brasil, uma versão anti-CD19 desenvolvida pelo Hemocentro de Ribeirão Preto/USP em parceria com o Instituto Butantan apresentou resultados preliminares muito altos em pacientes com linfoma refratário e avança em estudo clínico com objetivo de chegar ao SUS.
O caso de Paulo Peregrino
O publicitário Paulo Peregrino se tornou um dos casos mais conhecidos da terapia CAR-T brasileira. Ele havia convivido por anos com câncer e, depois do diagnóstico de linfoma não-Hodgkin, passou por dezenas de ciclos de quimioterapia e por transplante de medula óssea sem controle duradouro da doença.
Em março de 2023, recebeu células CAR-T produzidas pelo Hemocentro de Ribeirão Preto. O exame realizado poucas semanas depois não mostrou doença detectável, caracterizando remissão completa. Reportagens posteriores popularizaram o intervalo de 48 dias; o relato publicado em 2023 descreve um PET-scan cerca de um mês após a infusão já sem sinais detectáveis dos tumores.
Há pequena divergência entre reportagens sobre o número exato de sessões de quimioterapia: o relato contemporâneo de 2023 menciona 45, enquanto matérias mais recentes arredondam para cerca de 50. O ponto clínico central não muda: tratava-se de um paciente intensamente pré-tratado, com doença refratária.
Como a CAR-T funciona?
O sistema imunológico já possui células T capazes de destruir células infectadas ou anormais. O problema é que muitos tumores conseguem escapar desse reconhecimento. A CAR-T adiciona artificialmente às células T um receptor desenhado para identificar uma molécula do câncer.
No produto brasileiro em estudo, o alvo é o CD19, proteína expressa em células da linhagem B. Quando a célula CAR-T encontra uma célula CD19 positiva, o receptor ativa sinais internos que fazem o linfócito atacar, liberar moléculas citotóxicas, proliferar e recrutar uma resposta imune adicional.
Etapas do tratamento
- Coleta: linfócitos T são retirados do sangue do paciente por aférese.
- Modificação genética: em laboratório, as células recebem o gene que codifica o receptor CAR anti-CD19.
- Expansão e controle de qualidade: as células modificadas são multiplicadas e testadas.
- Linfodepleção: antes da infusão, o paciente geralmente recebe quimioterapia curta para reduzir temporariamente outras células imunes e criar um ambiente favorável à expansão das CAR-T.
- Infusão: as células são administradas pela veia, frequentemente em uma única infusão.
- Monitoramento: a equipe acompanha resposta tumoral e toxicidades precoces e tardias.
O processo completo é personalizado e pode levar várias semanas. Por isso, CAR-T é logisticamente muito diferente de um medicamento produzido em massa e entregue pronto.
O estudo brasileiro CARTHEDRALL
O produto nacional é desenvolvido no Hemocentro de Ribeirão Preto e no Centro de Terapia Celular da USP, em parceria com o Instituto Butantan. O ensaio CARTHEDRALL é um estudo multicêntrico de fase 1/2 destinado a pacientes com leucemia linfoide aguda de células B ou linfoma não-Hodgkin de células B recidivado/refratário.
O protocolo prevê 81 pacientes e envolve cinco centros: Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, Hospital das Clínicas da FMUSP, HC-Unicamp, Beneficência Portuguesa e Hospital Sírio-Libanês.
A Anvisa aprovou o relatório de segurança da primeira etapa e autorizou a progressão do estudo. Em junho de 2026, dados preliminares divulgados pelo Ministério da Saúde apontaram 87,5% de resposta entre pacientes com linfoma que já haviam falhado a tratamentos anteriores. O estudo continuava em andamento e exigia pelo menos um ano de acompanhamento após a infusão para consolidar segurança e eficácia.
Por que CAR-T pode funcionar quando a quimioterapia falhou?
A quimioterapia convencional depende principalmente da maior sensibilidade de células que se dividem rapidamente. Já a CAR-T utiliza um mecanismo completamente diferente: reconhecimento molecular específico e ataque imunológico. Uma célula tumoral resistente a vários quimioterápicos ainda pode continuar expressando CD19 e, portanto, permanecer vulnerável à CAR-T.
Além disso, as células CAR-T podem expandir-se no organismo depois da infusão e algumas persistem por meses ou anos, oferecendo vigilância contra células tumorais residuais. Essa persistência varia entre produtos e pacientes.
Quais cânceres podem ser tratados?
A versão brasileira do CARTHEDRALL é anti-CD19. Seu foco são malignidades de células B, especialmente:
• leucemia linfoide aguda de células B;
• linfoma não-Hodgkin de células B recidivado ou refratário.
Ela não é uma terapia universal contra câncer. Tumores sólidos, como câncer de pulmão, mama, próstata ou pâncreas, em geral não expressam CD19 e apresentam obstáculos adicionais: microambiente imunossupressor, heterogeneidade dos alvos e dificuldade de as células T penetrarem no tumor.
Existem outros CAR-T no mundo direcionados a alvos diferentes, como BCMA no mieloma múltiplo. A plataforma, portanto, é adaptável, mas cada combinação de alvo e doença exige validação específica.
Quais são os principais riscos?
CAR-T pode produzir respostas dramáticas, mas não é um tratamento leve. As células modificadas podem desencadear uma ativação imunológica muito intensa.
Síndrome de liberação de citocinas (CRS): febre alta, queda de pressão, taquicardia, hipóxia e, nos casos graves, disfunção de órgãos. Pode exigir tocilizumabe, corticoide, suporte intensivo e internação.
ICANS — síndrome de neurotoxicidade associada a células efetoras imunes: pode causar confusão, alteração de linguagem, tremores, sonolência, convulsões e, raramente, complicações neurológicas graves.
Citopenias e infecções: queda prolongada de leucócitos, plaquetas ou hemoglobina pode aumentar risco de infecção e sangramento. Como CD19 também existe em células B normais, é possível haver redução prolongada dessas células e de imunoglobulinas.
Efeitos tardios: autoridades regulatórias mantêm acompanhamento de longo prazo. A FDA, por exemplo, incluiu alerta para casos raros de malignidades de células T após terapias CAR-T autólogas, embora o benefício continue superando o risco nas indicações aprovadas.
É uma terapia aprovada no Brasil?
A tecnologia CAR-T já existe comercialmente no país por meio de produtos registrados pela Anvisa. O produto brasileiro do CARTHEDRALL, porém, ainda é investigacional e não deve ser confundido com esses produtos comerciais.
O objetivo do projeto brasileiro é gerar evidência suficiente para registro regulatório e, posteriormente, avaliação de incorporação ao SUS. A participação no estudo é gratuita para pacientes elegíveis e recrutados pelos centros participantes.
Quanto custa?
Terapias CAR-T comerciais estão entre os tratamentos mais caros da medicina. Em 2026, o governo brasileiro citou custo de aproximadamente R$ 2,5 milhões para tratamentos similares disponíveis na rede privada.
A produção nacional procura mudar essa equação por meio de fabricação em instituições públicas, aumento de escala e redução da dependência de produtos importados. O objetivo declarado é tornar possível uma futura oferta pelo SUS, caso eficácia, segurança, registro e avaliação de incorporação sejam favoráveis.
O que há de novo além do câncer?
O conceito de eliminar seletivamente células B também começou a ser estudado em doenças autoimunes. Em 2026, USP, Hemocentro de Ribeirão Preto, Butantan e Fapesp anunciaram cooperação para desenvolver estudos de CAR-T em lúpus eritematoso sistêmico e miastenia gravis generalizada.
A lógica é diferente da oncologia: eliminar profundamente clones de células B que sustentam autoanticorpos poderia permitir uma espécie de “reset” do sistema imune. Essa aplicação ainda é experimental e passa por avaliação regulatória.
O que podemos concluir?
CAR-T representa uma mudança de paradigma: em vez de administrar apenas um fármaco ao paciente, fabrica-se uma população de células imunes personalizadas e geneticamente programadas para reconhecer o câncer.
O caso de Paulo Peregrino mostra o potencial extremo dessa abordagem: doença refratária após múltiplos tratamentos seguida de remissão completa em poucas semanas. O dado brasileiro mais importante, porém, não é um caso isolado: os resultados preliminares de 2026 mostraram 87,5% de resposta em pacientes com linfoma dentro do programa clínico.
A interpretação correta é simultaneamente otimista e cautelosa. A terapia pode produzir remissões que seriam improváveis com tratamentos anteriores, mas envolve riscos relevantes, não funciona para todos os cânceres, pode haver recaída e o produto nacional ainda precisa concluir sua avaliação clínica e regulatória.
Se os resultados se mantiverem e o produto for aprovado, o impacto mais importante pode ser não apenas científico, mas também de acesso: transformar uma terapia que hoje custa milhões de reais em uma tecnologia produzida no Brasil e potencialmente disponível no SUS.
Referências
- Hemocentro de Ribeirão Preto. Estudo Clínico para o tratamento de leucemia e linfoma. Informações atuais sobre CARTHEDRALL, população, centros participantes e avanço do estudo.
- Instituto Butantan. Terapia Celular CAR-T. Funcionamento da tecnologia, desenvolvimento nacional e objetivo de acesso pelo SUS.
- Agência Brasil. Terapia CAR-T Cell mostra resposta de 87,5% em pacientes com linfoma. 10 jun. 2026.
- Hemocentro de Ribeirão Preto. Terapia experimental com células CAR-T alcança remissão em paciente com câncer há 13 anos. 2023.
- Revista piauí. Publicitário conta como teve remissão completa do câncer. Relato de Paulo Peregrino, 2023.
- Anvisa. Produtos de terapias avançadas registrados.
- U.S. Food and Drug Administration. Safety information for autologous CAR-T cell immunotherapies. 2025.
- U.S. Food and Drug Administration. Boxed warning for T-cell malignancies following CAR-T therapy. 2024.
- Instituto Butantan. CAR-T em lúpus e miastenia gravis. 2026.
Conteúdo informativo. CAR-T é uma terapia de alta complexidade indicada apenas para situações específicas e realizada em centros especializados. Elegibilidade, riscos e alternativas devem ser avaliados por equipe de hematologia/oncologia.