Nattokinase pode reduzir placas de aterosclerose?
A enzima derivada do alimento japonês nattō ganhou atenção por estudos que relatam diminuição de placas nas carótidas. Mas as doses diferem, os resultados são conflitantes e medir placas não é o mesmo que demonstrar menos infartos ou AVCs.
O que é nattokinase e como ela age?
Nattokinase (ou nattoquinase) é uma enzima proteolítica da família das subtilisinas, produzida durante a fermentação da soja por Bacillus subtilis var. natto. O principal interesse biomédico está em sua atividade fibrinolítica: em laboratório, ela degrada fibrina, proteína que compõe a estrutura dos coágulos. Estudos experimentais também sugerem modulação de componentes da fibrinólise, como o inibidor do ativador do plasminogênio (PAI-1), além de efeitos sobre determinados marcadores de coagulação.
Em um experimento cruzado, duplo-cego e controlado por placebo, 12 homens saudáveis receberam uma dose oral de 2.000 FU. Nas horas seguintes houve alterações discretas em D-dímero, produtos de degradação de fibrina/fibrinogênio e parâmetros da coagulação. As alterações permaneceram na faixa laboratorial normal. Esse achado sustenta algum efeito biológico após ingestão, mas não comprova que coágulos clinicamente importantes sejam dissolvidos com segurança nem que placas de aterosclerose regridam. [1]
Fibrina e placa aterosclerótica são coisas diferentes
Uma placa aterosclerótica é formada por acúmulo de lipoproteínas contendo ApoB, células inflamatórias, tecido conjuntivo e, frequentemente, cálcio dentro da parede arterial. Já um trombo é um coágulo que pode se formar sobre uma placa rompida ou erodida. A fibrina é especialmente importante no trombo, mas uma enzima capaz de degradar fibrina não necessariamente dissolve o núcleo lipídico ou a cápsula fibrosa de uma placa.
Por isso, são três perguntas clínicas independentes: a nattokinase modifica exames de coagulação? Reduz efetivamente a progressão ou a área das placas? Evita eventos como infarto e acidente vascular cerebral (AVC)? A evidência é mais direta para a primeira pergunta e muito mais frágil para as duas últimas.
Estudos em humanos: doses e resultados
| Estudo | Participantes e método | Dose | Achado principal e leitura crítica |
|---|---|---|---|
| 2017 [2] | 76 concluíram; 39 com nattokinase e 37 com sinvastatina por 26 semanas. Alocação randomizada; comparador ativo, sem braço placebo. | 6.000 FU/dia | Área de placa caiu cerca de 36,6% no grupo nattokinase. Resultado pequeno e não conclusivo; não avalia prevenção de eventos. |
| 2021 [3] | 265 participantes, ensaio duplo-cego randomizado contra placebo; mediana de 3 anos. | 2.000 FU/dia | Sem diferença significativa na progressão da espessura íntima-média carotídea ou rigidez arterial. Evidência negativa robusta para a população e dose testadas. |
| 2022 [4] | 1.062 participantes em análise retrospectiva por 12 meses; 683 com medidas de aterosclerose. Sem randomização/placebo. | 10.800 FU/dia na maioria | Redução média de 36% na área de placas entre participantes avaliados, mas o desenho não permite atribuir causalidade à nattokinase. |
O estudo de 2017: por que 6.000 FU chamaram atenção?
Pesquisadores chineses distribuíram participantes entre nattokinase (6.000 FU/dia) e sinvastatina (20 mg/dia), durante 26 semanas. Dos 82 inicialmente incluídos, 76 concluíram o protocolo. No grupo nattokinase, a área média da placa carotídea passou de aproximadamente 0,25 para 0,16 cm², uma redução relatada de cerca de 36,6%; a espessura íntima-média carotídea caiu de 1,13 para 1,01 mm. A diminuição de colesterol e triglicerídeos foi maior no grupo da sinvastatina. [2]
Esse resultado justifica investigação adicional, mas não autoriza afirmar que a nattokinase seja superior às estatinas. A comparação foi com apenas uma dose de sinvastatina, havia poucos pacientes, o seguimento foi curto e faltou braço placebo. Além disso, a variação de um marcador ultrassonográfico não substitui demonstração de menor incidência de infarto e AVC, algo já estabelecido para terapias hipolipemiantes adequadas ao risco cardiovascular.
O ensaio de 2021: resultado negativo com 2.000 FU
O estudo randomizado de Hodis e colaboradores envolveu 265 pessoas sem doença cardiovascular clínica, com risco relativamente baixo. Após mediana de três anos de 2.000 FU/dia ou placebo, não houve diferenças significativas na taxa de mudança da espessura íntima-média das carótidas nem da rigidez arterial. Os pesquisadores também não observaram efeito significativo sobre pressão arterial ou os exames laboratoriais avaliados. [3]
Essa é uma evidência mais forte para a população e a dose examinadas, porque existe comparação cega contra placebo por tempo prolongado. Não é, porém, um teste de 6.000 ou 10.800 FU/dia e tampouco de pessoas com doença aterosclerótica avançada. Não encontrar benefício com 2.000 FU não prova que doses superiores funcionem. Essa hipótese exige ensaios específicos.
O estudo de 2022: 1.062 pessoas e redução de 36%
Chen e colaboradores analisaram retrospectivamente registros de 1.062 pessoas que utilizaram nattokinase ao longo de 12 meses. Na comparação antes/depois, as 683 com avaliação de aterosclerose apresentaram redução média da área de placa carotídea de 24,9 para 15,94 mm², equivalente a cerca de 36%. A espessura íntima-média média caiu de 1,33 para 1,04 mm (−21,7%). Os autores também relataram melhora do perfil lipídico na dose de 10.800 FU/dia. [4]
Na comparação exploratória entre doses, havia 1.001 pessoas no grupo 10.800 FU e 61 no grupo 3.600 FU. O grupo de menor dose não mostrou melhora semelhante. Mas os grupos não foram randomizados e tinham tamanhos muito diferentes. Mudanças simultâneas em estilo de vida, tratamentos, seleção dos participantes, regressão à média e variações de mensuração podem influenciar resultados. Portanto, esses dados não estabelecem um limiar terapêutico nem uma curva causal dose–resposta.
Há ainda um elemento importante de transparência: cinco autores declararam vínculo empregatício com a empresa Sungen Bioscience, e outro com a Sinopharm. O artigo recebeu correção posterior de uma tabela de características iniciais; a revista informou que isso não mudava as conclusões. Vínculo empresarial não invalida automaticamente um estudo, mas reforça a importância da replicação independente com desenho randomizado. [4, 5]
O que diz a síntese dos ensaios clínicos?
Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2023 reuniu seis ensaios randomizados na análise quantitativa, com 546 participantes. Encontrou pequena redução média da pressão arterial — cerca de 3,45 mmHg na sistólica e 2,32 mmHg na diastólica — mas resultados inconsistentes para colesterol e triglicerídeos. As doses, durações e populações foram heterogêneas, e os autores ressaltaram que as conclusões eram preliminares. A metanálise não demonstra regressão de placas nem redução de eventos cardiovasculares. [6]
Quanto representam 100 mg em FU?
Miligrama (mg) mede massa; FU mede atividade enzimática. Não existe conversão universal sem a padronização do extrato. Como exemplo, um insumo com potência de 20.000 FU por grama fornece 2.000 FU em 100 mg de insumo, desde que esses 100 mg sejam efetivamente da preparação padronizada. Essa ordem de grandeza aparece em produtos comerciais e em especificações de um insumo avaliado pela autoridade europeia EFSA; não pode ser presumida para todos os fabricantes. [7]
| Quantidade de extrato a 20.000 FU/g | Atividade calculada | Equivalência |
|---|---|---|
| 100 mg | 2.000 FU | Uma cápsula hipotética |
| 200 mg | 4.000 FU | Duas cápsulas hipotéticas |
| 300 mg | 6.000 FU | Três cápsulas hipotéticas |
| 540 mg | 10.800 FU | 5,4 cápsulas hipotéticas; apenas cálculo matemático |
Esta tabela não é orientação de dose. O número de cápsulas não pode ser definido sem laudo de atividade enzimática e avaliação clínica.
Doses maiores são melhores?
Não sabemos. A observação de resultados positivos em estudos com 6.000–10.800 FU e negativos com 2.000 FU é compatível com a hipótese de dependência da dose, mas também com diferenças de população, desenho, controle de vieses e mensuração. Não existe ensaio grande, duplo-cego e adequadamente controlado demonstrando benefício clínico com essas doses altas. Tampouco existe uma dose validada para dissolver placas ateroscleróticas.
Outra limitação: relatos de tolerabilidade durante meses em estudos pequenos ou observacionais não demonstram segurança em uso crônico amplo. A atividade fibrinolítica pode ser biologicamente relevante e, ao mesmo tempo, aumentar riscos em determinadas pessoas.
Segurança, interações e contraindicações
O Memorial Sloan Kettering Cancer Center documenta advertências e relatos de eventos graves, incluindo hemorragia e trombose de prótese valvar após substituição indevida da varfarina. Relatos isolados não quantificam a frequência desses eventos, mas impedem caracterizar a substância como isenta de risco. Também há preocupação com alergia a componentes do nattō e variabilidade da composição comercial. [8]
Comparação com estratégias comprovadas
As diretrizes europeias atualizadas em 2025 continuam a colocar redução sustentada de LDL-colesterol e outras lipoproteínas aterogênicas no centro da prevenção. Estatinas são a primeira escolha farmacológica quando indicadas; ezetimiba, inibidores de PCSK9 e outras terapias entram conforme o risco e as metas individuais. Essas abordagens são apoiadas por estudos com desfechos cardiovasculares clínicos — não apenas imagens de carótidas. Controle de tabagismo, pressão arterial, diabetes, alimentação e atividade física também é fundamental. [9]
O ponto não é que a nattokinase jamais terá utilidade. É que não há base suficiente para trocá-la por intervenções que já demonstraram redução de risco cardiovascular ou para apresentá-la como tratamento estabelecido de aterosclerose.
Veredito
A nattokinase possui mecanismo fibrinolítico plausível e sinais interessantes em pesquisas humanas, especialmente em marcadores bioquímicos e em pequenos estudos de imagem carotídea. Os números que atraem atenção — 6.000 FU e 10.800 FU — vêm de estudos incapazes de demonstrar, com segurança, eficácia causal ou benefícios em eventos clínicos. O ensaio placebo-controlado mais prolongado, com 2.000 FU, foi negativo. A próxima etapa necessária é um ensaio randomizado, independente, com controle adequado, medidas padronizadas de placa e monitoramento rigoroso de sangramento.
Classificação da evidência para regressão de aterosclerose: preliminar e insuficiente para recomendação clínica. Para prevenção de infarto e AVC por nattokinase: benefício ainda não demonstrado.
Referências científicas
- Kurosawa Y et al. A single-dose of oral nattokinase potentiates thrombolysis and anti-coagulation profiles. Scientific Reports, 2015. Ensaio cruzado em 12 voluntários.
- Ren N et al. A clinical study on the effect of nattokinase on carotid artery atherosclerosis and hyperlipidaemia. Zhonghua Yi Xue Za Zhi, 2017. DOI: 10.3760/cma.j.issn.0376-2491.2017.26.005.
- Hodis HN et al. Nattokinase atherothrombotic prevention study: A randomized controlled trial. Clinical Hemorheology and Microcirculation, 2021. DOI: 10.3233/CH-211147.
- Chen H et al. Effective management of atherosclerosis progress and hyperlipidemia with nattokinase: A clinical study with 1,062 participants. Frontiers in Cardiovascular Medicine, 2022. DOI: 10.3389/fcvm.2022.964977.
- Chen H et al. Corrigendum do estudo de 1.062 participantes. Frontiers in Cardiovascular Medicine, 2022. DOI: 10.3389/fcvm.2022.1076420.
- Li X et al. Nattokinase supplementation and cardiovascular risk factors: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Reviews in Cardiovascular Medicine, 2023. DOI: 10.31083/j.rcm2408234.
- EFSA NDA Panel. Safety of fermented soybean extract NSK-SD as a novel food. EFSA Journal, 2016. Especificações do insumo e análise de atividade.
- Memorial Sloan Kettering Cancer Center. Nattokinase: benefícios alegados, interações e segurança. Base de medicina integrativa.
- European Society of Cardiology / European Atherosclerosis Society. 2025 Focused Update of the 2019 ESC/EAS Guidelines for the Management of Dyslipidaemias. Diretriz clínica.
Texto de divulgação científica, não constitui prescrição. Os achados e os limites da evidência foram descritos conforme as publicações citadas, consultadas em outubro de 2026. Não iniciar, aumentar ou substituir tratamentos com base somente neste artigo.