Ivermectina e outros vermífugos podem tratar o câncer?

Ivermectina, mebendazol, albendazol, niclosamida, fenbendazol e outros antiparasitários são investigados como possíveis antitumorais. Há mecanismos plausíveis, resultados em animais e alguns ensaios com pacientes. Mas a distância entre descoberta laboratorial e benefício clínico permanece grande.

Revisão crítica da evidência • Atualização: 18 de outubro de 2026 • Divulgação científica

Conclusão rápida: o reposicionamento de antiparasitários é uma linha legítima de pesquisa, mas nenhum dos vermífugos discutidos aqui tem eficácia estabelecida para tratar câncer como alternativa ou complemento universal às terapias oncológicas. Mebendazol, albendazol e niclosamida já têm dados de ensaios pequenos em pacientes, com resultados mistos ou negativos. Para ivermectina, persistem hipóteses pré-clínicas e um estudo clínico de combinação em andamento. Dois trabalhos frequentemente divulgados exigem atenção especial: uma expressão editorial de preocupação em 2026 sobre um estudo pré-clínico de ivermectina e a retratação de um estudo observacional de ivermectina + mebendazol. [1–3]

Por que testar remédios antiparasitários contra tumores?

Descobrir novos medicamentos pode custar anos de desenvolvimento. O reposicionamento de fármacos procura novas aplicações para moléculas já conhecidas, aproveitando informações anteriores sobre farmacologia e toxicidade. Isso não significa que a dose e a segurança aprovadas para verminoses sejam transferíveis para câncer.

Pesquisas propõem mecanismos distintos: desorganização dos microtúbulos (mebendazol, albendazol, fenbendazol); interferência em vias como WNT e sinalização do receptor androgênico (niclosamida); e, no caso da ivermectina, efeitos experimentais sobre vias de sinalização e a interação entre células tumorais e o sistema imune. O principal obstáculo é farmacológico: demonstrar que concentrações eficazes no laboratório podem ser alcançadas no tecido tumoral humano com toxicidade aceitável.

Um ensaio com células cultivadas prova que existe efeito naquelas condições experimentais; não garante que o medicamento chegue ao tumor na dose necessária. Uma resposta em camundongos é evidência pré-clínica. Somente estudos clínicos adequadamente controlados permitem separar o efeito do medicamento da evolução natural da doença, de tratamentos simultâneos e de vieses.

Mapa comparativo das pesquisas

SubstânciaCâncer pesquisadoMelhor evidência humana localizadaInterpretação
IvermectinaMama triplo-negativo e modelos de vários tumoresEnsaio fase I/II em combinação com imunoterapia, ainda sem resultado de eficácia publicado [2]Investigacional. Dados pré-clínicos relevantes receberam ressalva editorial.
MebendazolGlioblastoma e tumores gastrointestinais avançadosFase II randomizada com 88 pacientes; estudo fase IIa com 11 pacientes [4,5]Meta primária não atingida no estudo de glioblastoma; ausência de atividade clínica convincente no gastrointestinal.
AlbendazolTumores sólidos avançadosFase I, 36 pacientes [6]Sinais exploratórios em marcadores, sem prova de resposta tumoral ou ganho de sobrevida; toxicidade medular.
NiclosamidaPróstata resistente à castraçãoEstudos fase I/Ib; resultados diferentes conforme formulação [7,8]Melhor formulação elevou exposição; sinais clínicos não isolam efeito da niclosamida.
FenbendazolModelos de tumores sólidosSem evidência clínica controlada suficiente [9,10]Resultados animais conflitantes; há relatos de lesão hepática grave.
Pamoato de pirvínioPâncreasEnsaio fase I registrado [11]Pesquisa inicial de tolerabilidade, não tratamento comprovado.
LevamisolCólon, contexto históricoEnsaios randomizados de fase III [12,13]A combinação com 5-FU foi superior à observação, mas estudos posteriores não demonstraram benefício incremental do levamisol.

A classificação considera evidência publicada e registros clínicos disponíveis até a data desta revisão. “Estudo em humanos” não significa aprovação para uso oncológico.

1. Ivermectina: mecanismo imunológico e ensaio de combinação

Além de efeitos sobre processos celulares como sinalização e proliferação em modelos experimentais, um trabalho de 2021 em npj Breast Cancer relatou que a ivermectina induziria morte celular imunogênica e maior infiltração de linfócitos T em tumores mamários de camundongos. O artigo descreveu maior controle dos tumores com ivermectina associada a bloqueio anti-PD-1 do que com os agentes isolados. [1]

Ressalva editorial indispensável (junho de 2026)

O artigo de 2021 não está livre de ressalvas. Em fevereiro de 2026 houve uma correção; em 5 de junho de 2026, a revista publicou uma Editorial Expression of Concern por semelhanças repetidas entre imagens de grupos experimentais. Os autores informaram que os dados originais não estavam mais disponíveis. A editora recomenda interpretar os dados com cautela. Trata-se de uma expressão de preocupação, não de retratação, e ela enfraquece a confiança em parte dos resultados do estudo. [3]

Apesar dessas ressalvas, investigar a associação com imunoterapia é uma hipótese experimental verificável. O registro NCT05318469, do Cedars-Sinai Medical Center, descreve um ensaio fase I/II de ivermectina com balstilimabe ou pembrolizumabe em câncer de mama triplo-negativo metastático. Previa 34 participantes, e a última atualização publicada no registro, de 5 de agosto de 2026, indicava “recrutando”. Os desfechos incluem segurança, taxa de resposta objetiva e sobrevida; não foram identificados resultados de eficácia publicados no registro consultado. [2]

Isso não permite afirmar que ivermectina potencialize imunoterapia em pacientes. Também não estabelece doses domiciliares nem justifica substituir tratamento convencional. A Anvisa publicou em 15 de outubro de 2026 uma nota de esclarecimento: a ivermectina não tem eficácia comprovada para reduzir ou eliminar tumores. [14]

2. Mebendazol: os resultados clínicos mais instrutivos

O mebendazol, derivado benzimidazólico, prejudica a formação dos microtúbulos. Células cancerígenas também dependem dessas estruturas para se dividir, o que fundamenta seu estudo em tumores. Todavia, células humanas e parasitas não possuem sensibilidade idêntica, e o fato de o fármaco ser usado para helmintíases não garante atividade tumoral com as exposições alcançadas por via oral.

Glioblastoma recorrente: 88 pacientes

Um ensaio randomizado, aberto, de fase II realizado no Tata Memorial Center, na Índia, distribuiu 88 pacientes entre dois esquemas: mebendazol com temozolomida ou mebendazol com lomustina. A sobrevida aos nove meses foi de 36,6% e 45,0%, respectivamente. Nenhum grupo atingiu a meta previamente fixada de 55%. [4]

Leitura correta: o resultado não confirmou a meta de eficácia. Além disso, ambos os grupos receberam mebendazol; portanto o estudo não permite estimar quanto do resultado se deve especificamente a ele, em relação à quimioterapia isolada.

Doença gastrointestinal avançada: 11 incluídos

Outro estudo, fase IIa, avaliou pacientes com tumores gastrointestinais avançados. Dos 11 pacientes incluídos, 10 iniciaram o tratamento e a doença progrediu nos tratados. O ensaio não demonstrou atividade antitumoral clinicamente convincente nessa população. [5]

Assim, o mebendazol merece ser estudado por sua farmacologia, mas os dados clínicos disponíveis não dão respaldo a apresentá-lo como terapia oncológica eficaz.

3. Albendazol: pequena fase I, atividade incerta e mielossupressão

Em estudo fase I, 36 pacientes com tumores sólidos refratários receberam albendazol em escalonamento de dose, sob supervisão especializada. Entre 24 avaliáveis, quatro apresentaram redução de pelo menos 50% de algum marcador tumoral. O achado é exploratório: um marcador laboratorial menor não demonstra, por si só, redução do tumor, melhora dos sintomas ou prolongamento de vida. [6]

A toxicidade dose-limitante foi mielossupressão, ou supressão da produção de células sanguíneas pela medula óssea. Isso ilustra que o perfil de segurança de uma exposição oncológica experimental não é equivalente àquele de um tratamento antiparasitário habitual.

4. Niclosamida: por que a formulação muda os resultados?

A niclosamida possui atividades propostas em múltiplas vias de crescimento tumoral, incluindo sinalização androgênica em câncer de próstata resistente à castração. O problema central é a baixa biodisponibilidade sistêmica da apresentação convencional.

Em estudo fase I de 2018, cinco pacientes receberam niclosamida convencional com enzalutamida. A exposição plasmática ficou abaixo dos níveis esperados nos modelos pré-clínicos, houve toxicidade gastrointestinal limitante em doses maiores e nenhum participante apresentou queda de PSA. O estudo foi encerrado por futilidade. [7]

Um ensaio fase Ib posterior testou uma formulação reformulada em conjunto com abiraterona e prednisona. Entre oito pacientes avaliáveis, cinco tiveram resposta de PSA, e dois apresentaram também resposta radiológica. A nova formulação atingiu níveis plasmáticos pretendidos. Entretanto, sem braço comparador, é impossível atribuir as respostas especificamente à niclosamida, porque a abiraterona possui ação antitumoral estabelecida. O estudo tem amostra pequena e autores com interesses de propriedade intelectual relacionados à formulação. [8]

Esse exemplo destaca uma lição geral sobre reposicionamento de medicamentos: a molécula pode parecer promissora em culturas celulares, mas ser ineficaz clinicamente devido à absorção, ao metabolismo, à exposição tecidual ou à toxicidade.

5. Fenbendazol: popularidade na internet, evidência frágil

O fenbendazol é um antiparasitário veterinário. Sua divulgação como suposto tratamento contra câncer se apoia em relatos pessoais, experimentos de laboratório e extrapolações a partir de outros benzimidazólicos. Relatos isolados de melhora não estabelecem causalidade, sobretudo quando há cirurgias, quimioterapia, radioterapia ou imunoterapia concomitantes.

Uma pesquisa experimental de Yale, publicada em 2013, encontrou citotoxicidade em culturas de células mamárias tumorais de camundongos, mas não demonstrou atividade antitumoral nos modelos animais testados. [9]

Também há um sinal concreto de risco. Relato de janeiro de 2026 descreveu uma paciente de 47 anos, com câncer de cólon metastático e em imunoterapia, que desenvolveu lesão hepatocelular grave após aumentar o uso de fenbendazol por conta própria. A avaliação de causalidade favoreceu o fenbendazol e os exames melhoraram após sua suspensão. Um relato clínico não quantifica a incidência desse evento, mas contradiz a ideia de que seja uma intervenção necessariamente inofensiva. [10]

Produtos veterinários não devem ser utilizados como substitutos de medicamentos humanos e a segurança de administrações crônicas ou elevadas em pessoas com câncer não está estabelecida.

6. Pamoato de pirvínio: hipótese experimental no pâncreas

O pamoato de pirvínio, antiparasitário antigo, é pesquisado por efeitos sobre proteínas regulatórias, sinalização e metabolismo em modelos de câncer pancreático. O registro NCT05055323 descreve um estudo fase I voltado a segurança e tolerabilidade em adenocarcinoma pancreático ressecável. A existência de um ensaio de segurança não implica benefício demonstrado em sobrevida ou controle do tumor. [11]

7. Levamisol: a exceção histórica que ensina a importância do controle

Em 1990, um grande estudo com 1.296 pacientes com câncer de cólon ressecado encontrou redução relativa do risco de recorrência de aproximadamente 41% entre pacientes em estágio C que receberam fluorouracil (5-FU) combinado a levamisol, quando comparados à observação. Isso contribuiu para a adoção histórica do regime adjuvante. [12]

O desenho, contudo, não demonstrava que o levamisol acrescentava benefício ao 5-FU isolado. Um estudo fase III posterior com 1.327 pacientes comparou regimes com e sem levamisol e não encontrou vantagem significativa de sobrevida livre de doença ou global ao acrescentá-lo (HR de recorrência de 0,99, com intervalo de confiança cruzando 1). [13]

Essa distinção é fundamental: quando dois tratamentos são usados juntos, observar melhora não prova que ambos sejam eficazes.

8. O estudo de ivermectina + mebendazol retratado em outubro de 2026

Estudo formalmente retratado — não utilizar como prova de benefício. Em junho de 2026, Anticancer Research publicou um estudo observacional com 197 pacientes que utilizaram ivermectina e mebendazol. Apenas 122 completaram o acompanhamento de seis meses. O artigo comunicou benefício clínico de 84,4%, mas o desfecho foi baseado em informações autorrelatadas, sem comparação randomizada adequada e com tratamentos concomitantes. Após revisão editorial, avaliação independente e recurso dos autores, a revista retratou o artigo em 1º de outubro de 2026 por problemas metodológicos e analíticos. Seus percentuais de melhora não devem ser tratados como estimativas válidas de eficácia. [15,16]

A situação editorial é diferente daquela do artigo experimental de 2021 sobre imunoterapia: o de 2021 recebeu expressão de preocupação e deve ser lido com cautela; o estudo observacional de 2026 foi retratado e não deve fundamentar recomendações.

O que falta para uma evidência convincente?

O caminho cientificamente adequado inclui demonstrar concentração tumoral alcançável em humanos; estudar segurança com terapias simultâneas; realizar ensaios controlados suficientemente grandes; utilizar parâmetros objetivos como resposta radiológica, sobrevida livre de progressão, sobrevida global e qualidade de vida; e reproduzir os resultados de forma independente.

Mesmo quando se observam respostas em um ensaio sem grupo controle, não é possível saber se o benefício veio do antiparasitário, do tratamento anticâncer simultâneo ou da seleção dos pacientes. Da mesma forma, resultados em camundongos não estabelecem doses terapêuticas para pessoas.

Veredito

Como pesquisa: há hipóteses biológicas justificáveis para investigar certos antiparasitários, especialmente com formulações que resolvam problemas farmacocinéticos e em combinações testadas sob protocolos clínicos.

Como tratamento: a evidência publicada não sustenta iniciar ivermectina, mebendazol, albendazol, fenbendazol, niclosamida ou pirvínio por conta própria para curar ou controlar câncer. A possibilidade de toxicidade, interações e — sobretudo — atraso em terapias eficazes altera substancialmente o balanço de risco. O contexto clínico e o tipo específico de câncer importam mais do que o rótulo genérico “antitumoral”.

O desenvolvimento dessa área deve ser acompanhado pelos resultados de ensaios prospectivos, e não por listas de mecanismos moleculares ou depoimentos de remissão.

Referências e fontes primárias

  1. Draganov D et al. Ivermectin converts cold tumors hot and synergizes with immune checkpoint blockade for treatment of breast cancer. npj Breast Cancer, 2021. Há correção e expressão de preocupação posteriores; ver ref. 3.
  2. ClinicalTrials.gov. NCT05318469 — ivermectina e inibidores de checkpoint no câncer de mama triplo-negativo metastático. Registro atualizado em 05/08/2026.
  3. Editores de npj Breast Cancer. Editorial Expression of Concern. Publicação de 05/06/2026; inconsistências em imagens e indisponibilidade de dados originais.
  4. Patil VM et al. Mebendazole plus lomustine or temozolomide in patients with recurrent glioblastoma: A randomised open-label phase II trial. EClinicalMedicine, 2022.
  5. Mansoori S et al. A phase 2a clinical study on the safety and efficacy of individualized dosed mebendazole in patients with advanced gastrointestinal cancer. Scientific Reports, 2021.
  6. Phase I clinical trial to determine maximum tolerated dose of oral albendazole in patients with advanced cancer. Estudo fase I com 36 pacientes, 2009.
  7. Schweizer MT et al. A phase I study of niclosamide in combination with enzalutamide. Estudo em câncer de próstata resistente à castração, 2018.
  8. Phase Ib trial of reformulated niclosamide with abiraterone/prednisone in men with castration-resistant prostate cancer. 2021.
  9. Duan Q, Liu Y, Rockwell S. Fenbendazole as a potential anticancer drug. Anticancer Research, 2013.
  10. Differentiating fenbendazole-induced liver injury from immunotherapy hepatitis. Relato clínico, 2026.
  11. ClinicalTrials.gov. NCT05055323 — pirvínio em câncer pancreático. Registro de ensaio fase I.
  12. Moertel CG et al. Levamisole and fluorouracil for adjuvant therapy of resected colon carcinoma. New England Journal of Medicine, 1990.
  13. Modulation of 5-fluorouracil as adjuvant systemic chemotherapy in colorectal cancer: IGCS-COL. Ensaio randomizado fase III, 2005.
  14. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Ivermectina NÃO cura câncer. Nota publicada em 15/10/2026.
  15. Hulscher N et al. Real-world Clinical Outcomes of Ivermectin and Mebendazole in Cancer Patients. Anticancer Research, 2026. Publicação retratada.
  16. Editores de Anticancer Research. Retraction notice. Outubro de 2026, DOI: 10.21873/anticanres.18425.

Este texto apresenta dados de pesquisa e não é prescrição. Doses experimentais de ensaios oncológicos não devem ser reproduzidas fora dos protocolos. Em caso de diagnóstico de câncer, qualquer uso concomitante de antiparasitários deve ser discutido com a equipe de oncologia responsável.

← Voltar a Saúde & Longevidade