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Linguagem · cognição · sentido · comportamento

Do Google Ngram a uma hipótese sobre o ser humano

Começamos com uma pergunta simples: quais palavras com significado aparecem mais nos livros em inglês? A busca levou a algo mais interessante. Algumas palavras parecem descrever como organizamos a realidade; outras, o que tende a importar para nós. Juntas, elas sugerem uma arquitetura possível da cognição humana.

Esta página apresenta uma hipótese exploratória, não uma teoria psicológica validada. O Google Ngram mede frequência em livros digitalizados, não frequência de pensamento.

1. O experimento

O que o Ngram realmente mede?

O Google Books Ngram Viewer mostra a frequência histórica de palavras e expressões em grandes corpora de livros. Um unigram é uma palavra; um bigram, duas; um trigram, três. Ao comparar termos ao longo de décadas, podemos observar permanências, quedas e mudanças culturais.

Nosso procedimento foi deliberadamente simples: testar grupos de palavras, preservar as mais frequentes e substituir as demais por novos candidatos. O objetivo não era descobrir “a palavra mais usada” em sentido absoluto, mas procurar palavras de conteúdo muito gerais e depois explorar conceitos associados a valor, propósito e sentido da vida.

Primeiro resultado: operadores muito gerais

one
≈0,146%
time
≈0,111%
said
≈0,103%
like
≈0,094%
two
≈0,076%
see
≈0,070%
first
≈0,065%
people
≈0,061%
way
≈0,060%
made
≈0,052%

Valores aproximados observados perto do fim do corpus nos testes manuais. Não constituem um ranking oficial do Google.

2. A hipótese central

Teoria dos Operadores Cognitivos Fundamentais

O padrão chamou atenção porque os líderes não eram conceitos concretos como dinheiro, guerra ou governo. Eram palavras extremamente gerais. Isso levou à hipótese de que certas palavras funcionam como rastros linguísticos de operações cognitivas recorrentes.

one / two

Individuar e contar: transformar a experiência em entidades separadas.

first

Ordenar: criar sequência, prioridade e hierarquia.

time

Temporalizar: representar mudança, memória e futuro.

said

Transmitir estados mentais: aprender pela experiência de outros.

like

Comparar: reconhecer similaridade, formar categorias e analogias.

see / know

Distinguir observado, conhecido, inferido e desconhecido.

people

Representar outros agentes, intenções e relações sociais.

way

Representar um caminho entre o estado atual e um estado possível.

made / work

Agir sobre o mundo e produzir transformação.

As palavras mais gerais podem revelar menos sobre “o que pensamos” e mais sobre “como construímos um pensamento”.

Uma representação mental simplificada poderia ser descrita como:

M = (E, T, S, C, R, K, P)

onde E representa entidades, T tempo, S agentes sociais, C comunicação, R relações e similaridades, K conhecimento e percepção, e P caminhos de ação.

3. Do pensamento ao sentido

Uma segunda camada: o que parece importar?

Depois dos operadores cognitivos, passamos a testar palavras associadas a propósito, pertencimento, realização, transcendência e continuidade. Os resultados não “provam” valores humanos, mas ajudam a gerar hipóteses.

EixoPalavras que se destacaramLeitura possível
Fazerwork, made, usedGrande parte da vida humana parece organizada em torno de agir, produzir, transformar e fazer algo funcionar.
Pertencerhome, family, love, childrenVínculos concretos aparecem com mais força que abstrações como belonging ou legacy.
Compreenderknowledge, understanding, truthReduzir incerteza e melhorar o modelo do mundo parece ter valor recorrente.
TranscenderGod, hope, faithHumanos também parecem construir significado para além do presente imediato.
Continuarlife, children, deathA continuidade da vida e a relação com a finitude permanecem temas centrais.

Alguns contrastes foram especialmente sugestivos: work apareceu muito acima de success; family e home acima de belonging; life muito acima de legacy; e happiness apareceu relativamente pouco. Isso sugere que a linguagem cotidiana e escrita talvez se organize mais em torno de ação, vínculos e continuidade concreta do que em torno de abstrações explícitas sobre “felicidade” ou “propósito”.

4. A síntese

Uma arquitetura unificada do comportamento humano

Se juntarmos as duas camadas — como representamos o mundo e o que valorizamos nele — surge uma estrutura mais completa:

Perceber
Compreender
Valorizar
Escolher
Agir

A fórmula pode ser expandida:

M = (E, T, S, C, R, K, P, V, G, H)

Agora, V é valor/valência, G é objetivo e H é esperança — a crença de que um estado futuro desejável pode ser alcançado.

O ser humano pode ser entendido, de forma simplificada, como um agente que constrói um modelo do mundo, atribui valor a partes desse modelo, imagina estados futuros e procura caminhos para alcançá-los.

Isso leva a quatro perguntas fundamentais:

O que existe? → O que importa? → O que quero? → Como chego lá?

Nessa leitura, “sentido” não seria necessariamente uma resposta única. Seria o encaixe entre modelo de mundo, valor, objetivo, pertencimento e ação.

5. Uma leitura do ser humano

Cinco forças parecem se repetir

Agência

Quero ser capaz de fazer algo e mudar minha situação. Palavras como work, way e made apontam nessa direção.

Vínculo

Quero pertencer a relações concretas: home, family, love, children.

Compreensão

Quero reduzir incerteza e compreender melhor o mundo: see, know, knowledge, understanding.

Esperança

Quero acreditar que há um futuro melhor e que um caminho até ele existe.

Continuidade

Quero preservar vida, vínculos e alguma forma de permanência diante da finitude.

Uma possível “função de utilidade humana” seria então:

U = f(sobrevivência, agência, vínculo, conhecimento, status, prazer, esperança)

Essa formulação não é uma conclusão empírica. É um mapa de hipóteses para testar.

6. Aplicação econômica

O que isso sugere para marketing, negócios e investimentos?

A utilidade econômica dessa hipótese não está em comprar uma ação porque uma palavra subiu no Ngram. Está em identificar necessidades humanas persistentes e perguntar quais produtos ou empresas as atendem de forma superior.

Marketing: venda transformação, não atributos

Se a arquitetura básica for “estado atual → caminho → estado desejado”, uma mensagem forte tende a mostrar qual mudança o produto permite.

problema atual → way → work → estado desejado

Isso favorece mensagens concretas. “Passe mais tempo com sua família” tende a representar melhor uma necessidade humana do que “aumente seu pertencimento”. “Aprenda a analisar uma empresa” tende a ser mais concreto que “desenvolva sabedoria financeira”.

Produtos: quanto mais motores atendidos, maior o potencial

Um produto particularmente poderoso pode combinar quatro dimensões:

Valor percebido ≈ Agência × Vínculo × Conhecimento × Esperança

Ferramentas de IA, smartphones, plataformas educacionais, serviços financeiros e produtos de saúde podem ser fortes justamente porque não atendem apenas a uma necessidade.

Investimentos: use como radar, não como gatilho

NecessidadeMercados que podem capturá-la
Agência / workIA, software, automação, ferramentas profissionais
ConhecimentoIA, busca, educação, dados, informação especializada
Família / homehabitação, segurança, seguros, serviços domésticos, educação
Life / healthsaúde, diagnóstico, prevenção, longevidade
Esperança / futureeducação profissional, investimento, empreendedorismo, transformação pessoal

Depois do tema humano vêm os filtros econômicos:

necessidade × crescimento × moat × ROIC ÷ valuation

O Ngram serve apenas como um primeiro radar de temas persistentes ou em transformação cultural.

7. O que pode estar errado?

Limitações e falsificação

Frequência de palavra não é frequência de pensamento, valor ou desejo.

O corpus do Google Books muda de composição ao longo do tempo; diferentes gêneros entram em proporções diferentes; palavras têm múltiplos sentidos; e parte da frequência pode ser explicada por gramática, estilo ou práticas editoriais.

A hipótese fica mais interessante apenas se sobreviver a testes independentes:

  1. Repetir a análise em outras línguas.
  2. Comparar livros com fala transcrita, jornais, legendas e conversas.
  3. Controlar polissemia e função gramatical.
  4. Verificar quais categorias permanecem estáveis por séculos.
  5. Testar experimentalmente se agência, vínculo, conhecimento e esperança predizem escolhas, memória ou comportamento.

8. Próximo passo

Testar a “função de utilidade humana”

O próximo experimento mais útil é comparar diretamente grupos ligados aos principais motivadores:

DimensãoPalavras para testar
Sobrevivência / segurançahealth, safety, security, food, money, home, fear, pain
Status / poderpower, status, wealth, success, respect, influence, fame, competition
Agênciafreedom, choice, control, opportunity, ability, change, future, progress
Desejopleasure, happiness, desire, hope, comfort, fun, beauty, sex

Se algumas dessas dimensões forem persistentemente fortes em diferentes épocas, línguas e corpora, teremos algo mais interessante do que um ranking de palavras: um esboço empírico de quais problemas a mente humana parece resolver repetidamente.